Criado em setembro de 1981 pela jornalista Mara Régia di Perna, o programa Viva Maria alcançou a marca histórica de 45 anos no ar. Com mais de 8,2 mil edições veiculadas, a atração consolidou-se como um dos canais mais relevantes na defesa dos direitos humanos, igualdade de gênero e cidadania feminina em todo o país.
Mobilização social e conquistas na legislação
O surgimento do programa coincidiu com um período decisivo da redemocratização brasileira. O espaço serviu de base para encontros e articulações políticas, desempenhando papel crucial na elaboração e divulgação da Carta das Mulheres aos Constituintes, entregue em março de 1987 para assegurar avanços civis e sociais na nova Constituição Federal.
Além da atuação constitucional, a pressão exercida pelos debates no rádio foi determinante para a criação da primeira delegacia especializada de atendimento à mulher no Distrito Federal, em 1986. Pelo forte enfrentamento à violência doméstica e familiar, Mara Régia chegou a receber ameaças de morte, necessitando de proteção policial e tendo que afastar temporariamente seus filhos da capital.
Da dor familiar ao ativismo nas ondas do rádio
A determinação para pautar o combate à violência contra a mulher tem raízes na trajetória pessoal da apresentadora. Nascida no Rio de Janeiro, ela vivenciou agressões domésticas sofridas por sua mãe, cometidas pelo pai em razão do alcoolismo. O trauma motivou Mara a buscar formação acadêmica em jornalismo e publicidade em Brasília, além de especialização em temáticas de gênero durante uma temporada de dois anos em Londres.
Vidas transformadas e o alcance comunitário
Ao longo de quatro décadas e meia, o público ouvinte — carinhosamente chamado de “Marias” — deixou de ser mero espectador para se tornar protagonista das transmissões através de cartas, telefonemas e mensagens digitais.
Superação no Norte do país
O alcance do microfone possibilitou mudanças reais em comunidades remotas. No Amapá, campanhas solidárias forneceram perucas para vítimas de acidentes com escalpelamento causados por eixos de embarcações. O acolhimento motivou a professora Rosinete Serrão a superar o trauma, concluir a educação básica e obter diploma em Pedagogia.
No Acre, o programa estabeleceu uma rede de comunicação fundamental entre parteiras tradicionais que atuam em seringais isolados, facilitando a troca de informações essenciais de saúde. De forma semelhante, a trabalhadora rural Kennya Silva viu sua vida mudar após ter uma poesia divulgada na atração, estímulo que a levou a ingressar no ensino superior e se formar em Letras.
Legado acadêmico e premiações
A relevância social do programa ultrapassou os limites do rádio e virou objeto de reflexão científica. Existem atualmente pelo menos 30 pesquisas de pós-graduação dedicadas a analisar o impacto sociocultural da atração, acompanhadas por mais de três dezenas de premiações nacionais e internacionais. Para celebrar a trajetória de 45 anos, uma série especial em formato de podcast com 14 episódios detalha a memória e as lutas travadas pelo projeto ao longo das décadas.