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O que explica o sucesso eleitoral de influenciadores?

A expressiva votação conquistada por criadores de conteúdo com milhões de seguidores despontou como uma das marcas da última eleição. Apesar do alcance virtual ser um motor evidente, o resultado nas urnas não depende exclusivamente de visualizações ou curtidas. A consolidação dessas candidaturas passa obrigatoriamente por investimento financeiro, alinhamento partidário e forte atuação nos territórios físicos.

Visibilidade digital não explica tudo

A correlação direta entre audiência em perfis e vitória eleitoral exige cautela de análise. Conforme pontua Bianca Fernandes, a Biana, mestranda em antropologia digital pela USP e integrante do DiraCom (Direito à Comunicação e Democracia): “Dizer que os candidatos mais votados têm uma presença expressiva nas redes sociais não é o mesmo que afirmar que foram eleitos por causa dessa presença”.

A especialista pondera o alcance real das mídias. “É evidente que as plataformas digitais são importantes, principalmente porque elas ampliam a circulação de determinadas figuras públicas e ajudam a construir reconhecimento, o que eventualmente pode oferecer condições para mobilização política. Mas tem um problema quando a gente toma a visibilidade digital como causa suficiente do sucesso eleitoral”, acrescenta.

A força do impulsionamento e as bases da extrema direita

No espectro da extrema direita, candidatos destinaram fatias expressivas de seus orçamentos para alavancar postagens. O deputado federal mais votado do pleito, Lucas Pavanato (PL-SP), ex-membro do MBL e atual vereador paulistano de origem evangélica, arrecadou R$ 3.082.120,04 — sendo 92,79% oriundos do fundo de seu partido. De suas despesas totais (R$ 2.702.190,92), exatos 50% foram voltados ao impulsionamento online. Com 5,1 milhões de seguidores, ele obteve 3.119.318 votos apostando em embates com estudantes de universidades públicas, ataques a minorias e pautas contrárias aos direitos LGBTQIA+.

Cenário similar ocorreu com a deputada estadual eleita Eduarda Camponiano (PL-SP), atual vereadora de Praia Grande. Dos R$ 654.315,52 utilizados na campanha, cerca de R$ 400 mil (61%) financiaram anúncios em plataformas. Eleita com 1.956.238 votos, Camponiano reúne 2,6 milhões de seguidores — indicando que ao menos 24% de sua audiência não votou nela. A parlamentar atua com teses antifeministas e chegou a ser processada por transfobia após atacar Erika Hilton (Psol-SP), além de produzir conteúdo conjunto com Pavanato afirmando que a esquerda promove a “favelização”.

Padrinho político da dupla e deputado mais votado de Minas Gerais, Nikolas Ferreira (PL-MG) utilizou R$ 103 mil em impulsionamento no Facebook. Contudo, 48% do seu montante total de R$ 1.237.095,31 foi gasto na confecção de material gráfico tradicional, como panfletos e adesivos, além de promover atos presenciais, como caminhadas anticorrupção.

Para Biana, o fenômeno conservador não pode ser resumido a métricas: “No caso da extrema direita, por exemplo, não dá para explicar seu crescimento apenas por uma suposta ‘competência excepcional para produzir vídeos ou dominar algoritmos’. A gente está falando de um movimento político que dispõe de organizações, financiamento, redes religiosas, espaços de formação ideológica e uma capacidade de mobilização que ultrapassa amplamente as plataformas”.

Ela complementa a respeito do apelo desse discurso: “Parte da extrema direita conseguiu se apresentar como força de contestação, enquanto defende, em muitos aspectos, a preservação ou o aprofundamento de estruturas de poder já existentes. Esse discurso funciona também porque oferece explicações aparentemente simples para contradições sociais reais. A precarização do trabalho, a insegurança econômica, a frustração com as instituições e a percepção de ausência de perspectivas são experiências concretas. A extrema direita frequentemente captura essas insatisfações e oferece inimigos identificáveis, como imigrantes, mulheres, pessoas trans ou movimentos sociais”.

Presença territorial e engajamento no campo progressista

O impacto dos influenciadores também repercutiu na esquerda. Segunda mais votada de Minas Gerais, atrás apenas de Nikolas Ferreira, a deputada Ana Elisa (PT-MG) conquistou 524.216 votos e soma 3,4 milhões de seguidores no Instagram, atingindo a marca histórica da maior votação feminina do estado.

Diferente de seus pares conservadores, Ana Elisa não destinou verba ao impulsionamento pago. Cerca de 80% do total de R$ 895.294,14 gastos foram direcionados a atos nas ruas. Estudante de Direito e filha de professora sindicalista, ela explicou a amplitude de seu alcance: “Eu fui votada nos 853 municípios de Minas Gerais e rodei cerca de 20 municípios. Então, é a prova de que a rede social chega muito antes que nosso próprio corpo nos territórios”. Sobre sua trajetória prévia, ela relembrou: “Comecei a falar de política e a ser ativa politicamente desde sempre”.

Outro caso de mobilização híbrida é o de Rick Azevedo (Psol-RJ), eleito o segundo deputado federal mais votado no Rio de Janeiro com 191.371 votos. Atual vereador carioca com 606 mil seguidores, Azevedo articulou o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), centralizando o debate sobre o término da escala 6×1 e combinando passeatas com negociações legislativas no Senado. Em sua prestação de contas, de um total de R$ 733.550,71, apenas 7% foram dedicados a mídias digitais.

Biana avalia os desafios estratégicos do setor: “A esquerda precisa se perguntar não apenas como comunicar melhor suas propostas, mas como construir relações políticas concretas com as pessoas e disputar interpretações sobre suas condições de vida, para, a partir disso, oferecer perspectivas de transformação que façam sentido para elas.”

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