O protagonismo feminino ganha força no interior do Rio Grande do Sul, onde 118.101 produtoras foram atendidas por serviços de assistência técnica ao longo do ano, com quase 49 mil envolvidas diretamente em projetos de capacitação e autonomia nos 497 municípios gaúchos.
A força produtiva do campo
Agricultoras, pecuaristas, pescadoras, indígenas, quilombolas e assentadas da reforma agrária exercem hoje um papel central na produção de alimentos, na geração de renda e na manutenção de comunidades inteiras no Estado.
Historicamente limitadas a funções de apoio, elas agora administram negócios familiares, planejam safras e lideram empreendimentos voltados para práticas sustentáveis e inclusivas.
Desafios e liderança feminina
Na Região Metropolitana de Porto Alegre, a produtora Cristine Saldanha ilustra essa realidade ao gerir um sistema de agrofloresta que une cultivo e preservação ambiental.
Para ela, ampliar oportunidades para as mulheres rurais significa enfrentar obstáculos que ainda fazem parte da rotina de muitas produtoras. “Para que essas oportunidades cheguem a todas, é preciso considerar as dificuldades de deslocamento, a falta de transporte e de internet em algumas localidades e a sobrecarga de trabalho e cuidados. Creches, espaços de cuidado durante reuniões e cursos, ações de prevenção e enfrentamento à violência no campo também são essenciais. E, acima de tudo, precisamos ser reconhecidas como agricultoras e participar das decisões sobre as políticas que afetam nossas vidas e nosso trabalho”, destacou.
Dados estatísticos revelam que 53% das trabalhadoras atendidas têm mais de 50 anos, são casadas e possuem filhos, mantendo-se ativas na produção mesmo após a aposentadoria.
Iniciativas de capacitação
A escuta ativa das demandas dessas trabalhadoras resultou na criação de políticas públicas específicas, como o Curso de (Des)envolvimento para Mulheres Rurais, estruturado para promover trocas de experiências e autoconhecimento.
“Foi a partir dessa demanda que promovemos desde 2023 o Curso de (Des)envolvimento para Mulheres Rurais. A formação é organizada em módulos e propõe uma caminhada de autoconhecimento, troca de experiências e construção de autonomia”, ressaltou a extensionista rural Clarice Emmel Bock.
Os reflexos dessa preparação aparecem na expansão da renda familiar, no surgimento de associações femininas e na ocupação de espaços decisivos em várias regiões gaúchas.
Para Clarice, o acesso à informação continua sendo uma das ferramentas mais importantes para a transformação social. “Nosso trabalho consiste em fazer atividades grupais, de formação e trocas de experiências. Levar informação é também uma forma de viabilizar que as mulheres conheçam seus direitos e tenham mais condições de decidir sobre suas próprias vidas”, concluiu.
Com a proximidade de 2026, declarado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher Agricultora, o reconhecimento a essas trabalhadoras consolida o compromisso com a segurança alimentar e a preservação da biodiversidade no Rio Grande do Sul.