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Operação Contenção completa um ano sem conclusão sobre as mortes

Completou um ano nesta semana a Operação Contenção, realizada nos complexos de favelas do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro. Considerada a incursão policial mais letal da história do estado, a ação envolveu mais de 2,5 mil agentes das forças de segurança civis e militares na madrugada de 28 de outubro de 2025 e resultou em um saldo de 122 mortos, incluindo cinco policiais.

O contexto da megaoperação A ofensiva teve como justificativa oficial conter e atacar o avanço territorial da facção criminosa Comando Vermelho, além de desarticular sua estrutura financeira, logística e operacional. O governo estadual classificou o planejamento como estratégico para capturar lideranças criminosas que atuavam na região.

Investigações em andamento O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), por meio do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública, abriu um Procedimento Investigatório Criminal para apurar todas as mortes. O promotor de Justiça Fabio Correa, que preside o PIC, pontua a complexidade do caso.

“É uma situação sui generis, como nunca aconteceu na história da segurança pública do Rio de Janeiro, tanto que é considerada a operação mais letal da história”, destaca o promotor.

Até o momento, o órgão ministerial colheu depoimentos de 255 policiais envolvidos, 61 pessoas presas e 45 parentes de vítimas fatais. As equipes também analisaram laudos do Instituto Médico-Legal e cerca de 4 mil horas de imagens de câmeras corporais. Contudo, autoridades apontam que as baterias dos equipamentos se esgotaram durante as horas de confronto, e o MPRJ constatou que várias lentes foram intencionalmente desligadas ou obstruídas por agentes.

Casos atípicos e denúncias de abusos Entre as ocorrências registradas, peritos do MPRJ destacam pelo menos dois episódios atípicos: uma morte por disparos a curta distância e um caso de decapitação. A ausência de perícia técnica imediata nos locais dos crimes dificulta a elucidação dos fatos.

“[Os dois casos] não são conclusivos e permanecem ainda em apuração no bojo dessa investigação, que apura a totalidade das mortes, não só dos civis, como também dos policiais”, ressalta Corrêa. “É um elemento de prova, um elemento que vai ser trazido aos autos junto com os demais, com as demais análises sobre depoimentos, câmeras corporais [usadas pelas policiais]”.

Ele destaca, no entanto, que não foi possível realizar a perícia no local do crime, o que dificulta o entendimento do que aconteceu nesses casos.

“Então este é mais um elemento que entra na análise, de tudo que aconteceu”, afirma. “[Mais] o Ministério Público espera e pretende dar essas respostas definitivas sobre o que de fato aconteceu naquele dia”.

Além dos homicídios, investigações sobre desvios de conduta culminaram na denúncia de 27 policiais até junho, acusados de furtos de bens, invasões domiciliares e desvio de fuzis.

Relatório internacional e impactos na segurança Em março, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos publicou um relatório criticando a condução da operação, apontando táticas militares desproporcionais, superlotação no IML e indícios de execuções extrajudiciais e tortura. O documento enfatiza a discrepância entre o número de baixas civis e policiais.

“Ainda que se considere a hipótese de que civis estivessem armados e vinculados à organização criminosa, o padrão observado não se coaduna com cenário típico de confronto armado regular.”

Especialistas e pesquisadoras de segurança pública avaliam que a ação gerou traumas profundos na população local sem alterar o controle territorial do tráfico.

“O que a gente percebe é o que percebemos em todas as operações violentas no Rio de Janeiro. O saldo é nulo ou negativo. A gente fala nulo porque nada mudou”, afirma Maria Isabel Couto, do Instituto Fogo Cruzado.

“A população continua submetida às mesmas rotinas violentas do Comando Vermelho após a operação. A liderança do Comando Vermelho é a mesma, as pessoas do Comando Vermelho que morreram foram substituídas por outras pessoas”.

Carolina Grillo, pesquisadora do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense, reforça as críticas ao planejamento da investida.

“Os moradores passaram por uma cena de filme de terror para nada. No segundo em que a polícia foi embora, o Comando Vermelho continuava controlando o território. Supostamente, essa operação era para prender o Doca [liderança criminosa local]. Segundo os moradores, todo mundo já sabia que ia ter operação e que o Doca já tinha saído na véspera”, afirma.

Carolina Grillo complementa que, além de colocar a população em risco e criar um caos na cidade, a operação foi incapaz de proteger os próprios policiais.

“A operação foi um verdadeiro desastre, que resultou em cinco policiais mortos, ou seja, sem um planejamento adequado, que pensasse em proteger seus próprios agentes”, ressalta.

“Foi uma operação que não teve nenhum compromisso com a vida. Cerca de 60 corpos foram largados na mata, porque era tanta gente que a polícia matou que eles não eram capazes de carregar os corpos das suas vítimas”.

Procuradas pela reportagem, as polícias Civil e Militar, a Polícia Federal e a Secretaria Estadual de Segurança Pública não forneceram entrevistas detalhadas sobre o andamento das apurações atuais, mantendo o caso sob análise rigorosa dos órgãos de controle.

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