Diante do crescimento de fenômenos meteorológicos severos no território brasileiro, pesquisadores da área ambiental e de adaptação climática defendem a transição imediata para estratégias voltadas a evitar danos, superando a postura focada apenas no pós-desastre.
Desafios na gestão de riscos e finanças públicas
O debate ganha relevância no contexto do Dia Internacional para a Redução do Risco de Desastres, data estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) para incentivar estratégias de mitigação de prejuízos sociais, ambientais e econômicos.
“Isso mostra que ainda tratamos como surpresa riscos que já são conhecidos e recorrentes”, diz Rafael Loyola, integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e diretor da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS).
“Precisamos abandonar a cultura da tragédia e adotar uma cultura de prevenção. Hoje, o Brasil gasta mais de três vezes com resposta e reconstrução do que com prevenção de desastres, nos níveis federal, estadual e municipal”, complementa.
As medidas necessárias englobam o mapeamento contínuo de locais vulneráveis, aportes financeiros em contenção de encostas e drenagem, melhoria nas redes de alerta, além de arborização e regeneração de ecossistemas. Também é fundamental blindar serviços essenciais — como escolas, unidades de saúde, rodovias e sistemas energéticos — para operarem sob cenários adversos.
Ações locais e planejamento urbano integrado
Como os impactos variam conforme a localidade, a preparação exige planejamento específico para cada território, desafio acentuado pelas previsões climáticas sob influência do El Niño.
Para André Ferretti, gerente sênior de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário e integrante da RECN, a adaptação climática depende de ações articuladas entre diferentes setores.
“Ao contrário da mitigação, que tem foco na redução das emissões de gases de efeito estufa e pode ser feita em qualquer lugar do mundo, com efeitos positivos para todos, a adaptação exige ação local. É preciso olhar para cada território, mapeando riscos e vulnerabilidades.”
Para auxiliar nesse processo, a sociedade conta com recursos tecnológicos como a plataforma Natureza ON — fruto de uma parceria entre a Fundação Grupo Boticário e o MapBiomas, com suporte do Google Cloud —, que disponibiliza dados sobre perigos de deslizamentos, inundações e segurança hídrica.
Soluções Baseadas na Natureza nas cidades
A destruição da cobertura vegetal, o avanço do concreto sobre o solo e a ocupação desordenada de cursos d’água elevaram drasticamente a fragilidade dos centros urbanos diante de intempéries, conforme aponta Juliana Baladelli Ribeiro, gerente de Projetos da Fundação Grupo Boticário e especialista em Soluções Baseadas na Natureza.
A restauração de zonas verdes, a proteção de nascentes, a implementação de parques e o aumento da permeabilidade urbana ajudam a conter a erosão, resguardar encostas e equilibrar a umidade e a temperatura.
“São formas muito eficientes de lidar com os riscos associados ao excesso de água e às altas temperaturas, ao mesmo tempo em que geram benefícios para a qualidade de vida da população”, afirma Juliana.
Por fim, a especialista enfatiza que o desenvolvimento urbano deve incorporar análises climáticas desde a concepção dos projetos, evitando que novas intervenções acabem gerando o efeito oposto.
“Sem considerar os riscos e os impactos das mudanças do clima no planejamento dessas obras, parte desse investimento pode, em vez de preparar as cidades, contribuir para ampliar sua vulnerabilidade a eventos extremos e aprofundar a injustiça climática”, alerta.