Neste sábado (15), Porto Alegre se tornará o palco da luta contra a intolerância religiosa com a realização da Marcha dos Quimbandeiros e do Encontro Internacional de Quimbandeiros. Ambos os eventos têm como principal figura Pai Ricardo de Oxum, líder da Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, e um importante representante das religiões de matriz africana.
Marcha e Encontro: Uma Combinação de Forças
A Marcha dos Quimbandeiros, que chega à sua terceira edição, acontecerá às 14h, enquanto o 19º Encontro está programado para começar às 20h. O objetivo é transformar Porto Alegre em um referência nacional e internacional para praticantes da Quimbanda, atraindo participantes do Brasil, Uruguai e Argentina.
Histórico de Preconceito e Resistência
Pai Ricardo destaca que o encontro foi criado em resposta ao preconceito que os praticantes enfrentam no Rio Grande do Sul. De acordo com ele, o estado tem a maior concentração de seguidores de religiões afro-brasileiras, mas também enfrenta altos índices de intolerância religiosa. “Por anos, os praticantes enfrentaram discriminação. Não podiam expressar livremente sua fé sem medo de represálias”, afirma.
Dados do Censo Demográfico de 2022 revelam que 3,19% da população gaúcha segue religiões de matriz africana, colocando o estado à frente de outros como Rio de Janeiro e São Paulo. Essa realidade reforça a necessidade de eventos como a marcha e o encontro, que buscam unir pessoas na luta contra o racismo religioso.
Quimbanda e suas Representações
A Quimbanda é uma das expressões mais significativas da espiritualidade afro-brasileira, coexistindo com a umbanda e o candomblé no estado. Pai Ricardo explica que as entidades Exu e Pomba-Gira, muitas vezes associadas a preconceitos, têm propósitos positivos. “Elas não escolhem gênero ou orientação sexual, e podem se manifestar em qualquer pessoa”, esclarece.
No último ano, a marcha atraiu cerca de 2 mil participantes, que carregaram cartazes contra a intolerância e celebraram sua fé com música e dança. “É um manifesto que permite aos participantes compartilharem suas experiências de preconceito”, detalha Pai Ricardo.
Espaço de Luta e Conquista
O Encontro ocorrerá em um local concedido pela prefeitura, um marco significativo na luta pela visibilidade das práticas afro-religiosas. “O monumento de Exu, que é o primeiro em espaço aberto no Brasil, simboliza essa conquista”, ressalta Pai Ricardo.
Estudos recentes do Disque 100 mostram a urgência de combater a intolerância religiosa, com um número alarmante de denúncias relacionadas a práticas de matriz africana. A umbanda e o candomblé lideram as estatísticas, evidenciando um cenário preocupante de discriminação.
Desmistificando Exu e Pomba-Gira
Pai Ricardo enfatiza a importância de desmistificar as figuras de Exu e Pomba-Gira, como demonstrado em eventos culturais, como o desfile da escola de samba Grande Rio. “Essas representações ajudam a mostrar que Exu não é o que muitos pensam, ele é um orixá que pode errar e acertar, e está próximo da humanidade”, conclui.
A 3ª Marcha e o 19º Encontro de Quimbandeiros acontecem em um contexto de crescente conscientização e resistência contra a intolerância religiosa, reafirmando a necessidade de respeito e valorização das tradições afro-brasileiras.