A Anistia Internacional anunciou que levará o presidente da Argentina, Javier Milei, à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). A medida ocorre após uma série de declarações hostis do mandatário contra profissionais da imprensa que realizaram reportagens investigativas sobre sua gestão.
A escalada de hostilidade e o caso $Libra
As tensões se intensificaram após a Justiça argentina arquivar o caso conhecido como “criptogate”, investigado desde fevereiro de 2025. A suspeita envolvia o presidente e sua irmã, Karina Milei, em irregularidades na criação da criptomoeda $Libra, ativo que o chefe de Estado teria promovido em suas redes sociais. Para o juiz federal Marcelo Martínez De Giorgi, nenhuma infração penal foi cometida.
Em reação às investigações e reportagens, o mandatário utilizou suas redes sociais e discursos públicos para desqualificar nominalmente os jornalistas Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrígues, Natalia Volosin e Luis Novaresio. Em uma de suas postagens na rede social X, o governante classificou os profissionais como “subornados e mercenários da mentira” e afirmou ter sido vítima de uma conspiração golpista.
Repercussão internacional e entidades jornalísticas
A Anistia Internacional avaliou que a expressão utilizada pelo presidente evoca violência extrema e representa uma escalada inadmissível no assédio institucional. A diretora-executiva da ONG no país, Mariela Belski, destacou que o cargo presidencial exige responsabilidade redobrada na garantia da liberdade de imprensa.
Outras entidades também se manifestaram contra o governo argentino. A Federação Internacional dos Jornalistas (FIP), através de sua presidente Zuliana Lainez, alertou que o cenário não se trata de um simples conflito retórico, mas sim de um ambiente de intimidação perigoso. O Sindicato de Imprensa de Buenos Aires reforçou o repúdio, enquanto a Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa confirmou que integrará a representação junto à Anistia.
Histórico de violência e o caso do jornalista brasileiro
Dados do Fórum de Jornalismo Argentino apontam que 2025 registrou 278 ataques contra profissionais da comunicação no país, um aumento de 55% em relação ao ano anterior. O próprio Javier Milei foi apontado como autor direto de 119 desses episódios, englobando discursos estigmatizantes, processos judiciais e barreiras ao acesso à informação pública.
O clima de restrição ao trabalho jornalístico também atingiu repórteres estrangeiros. Em 12 de fevereiro, o jornalista brasileiro Rogério Tomaz Jr., crítico das políticas econômicas da atual administração, teve sua residência permanente cancelada e a entrada na Argentina proibida por cinco anos ao desembarcar em Buenos Aires.