A inteligência artificial tem transformado a rotina de educadores em diferentes regiões do Brasil, que encontram na tecnologia uma aliada para aproximar os conteúdos escolares da realidade dos alunos e estimular novas formas de aprendizado.
Inovação na periferia
Uma iniciativa desenvolvida pela professora Giovanna Macedo, em Campinas (SP), utilizou o ChatGPT para mostrar a 31 alunos do 4º ano do ensino fundamental como eles seriam representados no futuro em suas profissões dos sonhos. O vídeo com as reações das crianças viralizou mundialmente.
“O que você quer ser quando crescer?”
“Para mim, como professora, é muito significativo criar situações em que os alunos se sintam valorizados e vejam que alguém acredita neles, que têm potencial para irem além.”
“Mais do que utilizar uma tecnologia nova, nosso papel é encontrar formas de despertar a curiosidade das crianças, fortalecer a autoestima e ampliar os horizontes delas. Quanto mais conseguirmos mostrar o que são capazes de aprender, criar e sonhar, mais sentido terá o nosso trabalho.”
“Gostaria que experiências como essa inspirassem outros educadores a explorar novas metodologias e a pensar em maneiras criativas de aproximar os conteúdos escolares da realidade dos alunos.”
Desafios da cultura digital
Especialistas apontam que a transição do ensino tradicional para o digital exige responsabilidade, pois os estudantes muitas vezes não sabem transformar o volume de informações recebidas em conhecimento profundo.
“Uma criança pode ter facilidade para mexer no celular e, ainda assim, não saber pesquisar com profundidade, identificar uma informação falsa ou compreender os riscos de compartilhar determinados dados.”
“Precisamos oferecer ferramentas, formação e condições para que o professor consiga ensinar a essa geração em que cada criança tem seu ritmo, suas dúvidas e sua maneira de aprender.”
“Por mais que a tecnologia avance, a escola continua sendo um lugar de relações humanas. É onde a criança aprende a conviver, a lidar com dificuldades, a se conhecer e a descobrir do que é capaz.”
Formação continuada e otimização de rotinas
A capacitação docente é apontada como um pilar essencial para acompanhar a velocidade das inovações e garantir o uso pedagógico adequado das ferramentas tecnológicas.
“No campo digital, as mudanças ocorrem em velocidade tão rápida que torna praticamente impossível que o currículo das faculdades esteja sempre atualizado.”
“O Currículo em Movimento das Escolas Públicas do DF preconiza que a formação continuada extrapole o uso instrumental das tecnologias e passe para o uso crítico, colaborativo e focado na intencionalidade pedagógica”
“Muitos deles desenvolveram estratégias incríveis de ensino usando quadro, livros, papel e muita criatividade. O que precisamos é aproximar esses profissionais das novas possibilidades, respeitando suas trajetórias.”
Além da sala de aula, a automação de tarefas repetitivas libera tempo valioso para que os docentes possam planejar melhor suas atividades.
“Nós professores nos vemos com uma série de rotinas burocráticas, repetitivas, cansativas que, embora essenciais para o andamento da escola, tomam nosso tempo para estudar, planejar aulas, testar formatos e adequações, bem como acompanhar de maneira mais próxima nossos estudantes.”
“A qualidade do ensino continua dependendo da capacidade de transformar os recursos tecnológicos em experiências que ajudem o aluno a aprender. Avaliar o desenvolvimento de uma criança exige compreender seu percurso, suas dificuldades e seus avanços.”
Aplicação prática no ensino médio
Na rede pública do Distrito Federal, o professor Jaime Guilherme de Oliveira utiliza a IA para criar jogos educativos, adaptar avaliações para alunos neurodivergentes e facilitar a compreensão de conteúdos de computação gráfica.
“A ferramenta pode fazer muito por nós, mas a intenção, a sensibilidade, o pensamento crítico e a responsabilidade continuam sendo essencialmente humanas.”
O letramento digital também atua como barreira contra riscos virtuais e estimula o pensamento crítico dos estudantes frente aos atalhos proporcionados pelas tecnologias.
“O letramento digital deva atuar fortemente contra riscos, como aplicação de golpes e fakenews propagadas pelas redes sociais, bem como de se tornar uma fonte de novos aprendizados dos quais a pessoa necessite no campo pessoal ou da cidadania.”
“Reconheço que isso não é fácil, mas o caminho do letramento digital, da formação docente, de estipular e cobrar a análise, a síntese e a argumentação do aluno já foram testados com sucesso”
Diretrizes nacionais
Enquanto os professores adaptam suas práticas cotidianas, o Ministério da Educação prepara uma nova resolução para unificar parâmetros de uso ético da inteligência artificial nas escolas de todo o país, alinhada a programas de conectividade.
“A partir da resolução, o país passa a contar, de forma inédita, com um parâmetro nacional unificado para orientar a adoção consciente e ética da inteligência artificial em todas as etapas de ensino”