A capital paranaense passa a contar com a sua primeira empena dedicada à cultura originária, localizada na lateral do edifício Portal do Passeio, na região central. A iniciativa traz uma intervenção artística monumental que celebra a história e a ancestralidade dos povos indígenas na região sul do país.
Homenagem aos Kaingang
Batizada de “Kamé e Kairu – O Sol e a Lua na Terra das Araucárias”, a criação leva a assinatura da artista Daiara Tukano. O mural retrata as figuras de um sol e de uma lua com cores vibrantes e grafismos tradicionais, representando os irmãos fundamentais na mitologia da etnia Kaingang, habitantes nativos do estado.
“O sol é o lado guerreiro, que é o lado das pinturas abertas e linhas retas; e a lua representa o rezador, que é o calmo e tem grafismos em formas arredondadas”, explica Daiara. “Essa etnia tem na sua origem esses dois irmãos, que se dividem para dar equilíbrio, para se complementar, formando a sabedoria de resistência deste povo”, completa a artista.
Desafio técnico e protagonismo feminino
Com idealização dos produtores Giusy de Luca e Bernardo Bravo, o projeto exigiu quatro anos de planejamento e desenvolvimento até a sua materialização na paisagem urbana. A execução da pintura em grande escala fica sob a responsabilidade da artista paulistana Didi Sapiência e da chilena Laura Palta, que trabalham a dezenas de metros de altura.
“Nossas equipes estão sob rigorosos sistemas de segurança, já que as artistas que executam a obra, trabalham penduradas a 66 metros de altura”, afirma Bernardo. O resultado é uma enorme superfície colorida de aproximadamente 700 metros quadrados que transforma a dinâmica visual da região.
A escolha de contar com mulheres nas alturas reforça o compromisso da produção com a representatividade. “Já que é uma obra de uma artista mulher, quisemos trazer uma equipe qualificada, onde a maioria são mulheres especialistas em distintas áreas”, afirma Giusy de Luca. “Além disso, é significativo ver duas mulheres tão corajosas no alto do prédio e isso mostra que nós podemos e devemos ocupar a arte urbana”, completa.
Pesquisa e respeito à ancestralidade
Originária da etnia Tukano – Yépá Mahsã, Daiara buscou fundamentação teórica e diálogo direto com os homenageados para garantir a precisão dos símbolos utilizados na fachada do prédio no centro curitibano.
“Para fazer essa obra, eu conversei com alguns kaingangs, e pude acertar os grafismos. Eu não sou Kaingang, mas quis homenagear, porque é uma maneira de demonstrar carinho e respeito”, conta. “Além disso, a araucária marca o território sagrado deste povo e poder colocar uma pintura desta árvore num prédio, é uma maneira de falar dessa verticalidade, dessa força do território”
A inserção da cultura nativa em um espaço tão visível também reforça a importância democrática das intervenções visuais nas grandes metrópoles, servindo como ponto de reflexão e pertencimento para quem transita diariamente pelo local.
“A arte urbana é a arte mais democrática que existe, porque todo mundo tem direito à rua”, diz Daiara. “É a arte para quem passa para o trabalho, a caminho da escola, de ônibus, de carro e foi feita para todos que fazem a cidade, se tornando um monumento que vira parte do cotidiano”, completa.
O lançamento oficial da intervenção urbana ocorre em um evento festivo no terraço do Cine Passeio, marcando um marco histórico para a valorização da memória indígena no cenário urbano paranaense.